terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Fotógrafas relatam machismo e desrespeito na profissão

Como em muitas profissões, a fotografia já foi um campo culturalmente dominado pelos homens, onde o espaço para o trabalho feminino sempre foi o de estar em frente às câmeras.

Apesar de este cenário ser diferente nos dias de hoje, diversas fotógrafas lutam diariamente para quebrar um preconceito que, embora muitas vezes velado, ainda existe em relação ao mercado de trabalho. Em agosto de 2016, a fotojornalista Emma Howells relatou o desrespeito dos homens na profissão em matéria traduzida por Ligia Ribeiro para o Resumo Fotográfico.

Alguns estereótipos, como o de que a mulher é frágil, que não consegue carregar equipamentos pesados e até mesmo a “falta de fé” em seus trabalhos e conhecimentos técnicos, são algumas das reclamações mais constantes entre algumas profissionais. Assédio, moral e sexual, também entram na lista.

A fotojornalista Marina Brandão, 26, relata que uma vez, durante a cobertura de um jogo de futebol em São Caetano, São Paulo, foi ameaçada por torcedores que entraram em uma briga.

“Eu, fazendo meu trabalho, registrei o ocorrido. Logo após, uns seis homens da torcida foram até a beira do campo e começaram a me xingar”, explica Brandão. Os torcedores ainda a ameaçaram de morte. Ela contou o que havia acontecido aos policiais que faziam a segurança no estádio, porém eles disseram que não podiam ajuda-la, pois não tinham presenciado a cena.

Edu Guimarães 
Fotojornalista Marina Brandão [esq.] durante um dia de trabalho

Já a fotógrafa Mariana Lima, 29, que trabalha com fotografia publicitária, registrava um casamento quando foi desrespeitada por um dos convidados da festa. “Me pediu para eu fotografa-lo no banheiro, respondi que não e ele disse que eu estava sendo paga pra fotografar e agradar os convidados. Saí de perto para não ser grosseira e evitei me aproximar”, conta.

Uma mulher que precisa entrar em recintos repletos de homens para fazer uma foto, certamente ouvirá algum comentário sinuoso. Mas o problema se torna maior quando o abuso passa de oral para uma verdadeira agressão, tanto física quanto psicológica.

Em algumas situações, o machismo e a subestimação pelo trabalho das fotógrafas parte até mesmo de outras mulheres. Atuando profissionalmente na área da moda, retrato e publicidade, Erika de Faria, 29, conta que já sofreu assédio moral na profissão.

“Alguns clientes, inclusive mulheres, já me desmereceram por eu ser mulher, já duvidaram do meu conhecimento. Questionaram se eu era capaz de realizar os trabalhos para quais eu fui contratada, mesmo conhecendo meu portfólio, com o argumento de que, já que tinha cara de ter ‘20 anos’ e talvez eu não soubesse tanto assim como parecia”, relata Faria.
Cristiano Rolemberg 
Erika de Faria em um trabalho publicitário

A fotógrafa explica que por sempre ter sido um mercado extremamente masculino, a presença das mulheres incomoda. “Sempre acham que a mulher não vai dar conta, que não sabe coordenar uma equipe, que nos imprevistos vai surtar ou chorar ou que não deve saber tanto de técnica como outros fotógrafos homens”, diz.

A alegação da “pouca idade” também é algo que Olivia Villegas, 21, fotógrafa especializada em boudoir e retratos, escuta constantemente.

“Eu já sofri preconceito por ter rosto mais infantil, me darem 15 anos e não me contratarem porque não me levaram a sério. Mas depois que olham meu trabalho, o que mais escuto é: uau, novinha desse jeito e faz estas fotos?”, explica Villegas, que afirma se irritar com o tipo de comentário.

Porém, com todas as dificuldades enfrentadas rotineiramente, as mulheres se sobressaem quando o assunto é a sensibilidade. Quatro das dezenove fotografias selecionadas no Sony World Photography Awards 2016 foram registradas por mulheres.

É um número ainda baixo em comparação ao trabalho masculino, mas que se destaca pelo olhar mais humanista e emotivo que só as mulheres são capazes de captar.

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