segunda-feira, 20 de novembro de 2017

O bebê elefante e a importância da fotografia como denúncia


Recentemente, a fotografia de um filhote de elefante em chamas e sua mãe fugindo de uma multidão causou polêmica na internet. A triste imagem foi vencedora do concurso Sanctuary Wildlife Photography Awards 2017 e reflete uma realidade comum na Índia, mas que tem sido ignorada há muito tempo pelas autoridades. Após a publicação da foto, no entanto, muita dessa revolta pela situação retratada tem se voltado para o autor da fotografia. Algumas pessoas tem acusado o fotógrafo Biplab Hazra de se aproveitar de uma tragédia para se promover. Porém, é importante lembrarmos que sem essa imagem a grande maioria das pessoas sequer saberia da existência desse problema.

Ao denunciar um problema grave que acontece, o fotógrafo evidencia a questão e seu registro serve de documento para que as autoridades sejam cobradas. Neste momento, esse assunto está sendo discutido em todo mundo. A questão me lembrou de uma entrevista que realizei com João Marcos Rosa, fotógrafo da National Geographic Brasil, para a primeira edição impressa do Resumo Fotográfico: “Eu acredito naquela máxima de que ‘precisamos conhecer para preservar’. Se você não sabe que aquilo existe ou não tem ciência do risco de que uma espécie ou ambiente está sofrendo, você não está nem aí”, afirma João. “Então se esses assuntos não estivessem sendo trazidos à tona, principalmente por mídias independentes, talvez a gente não tivesse ciência”.

Um “bebê” de meia tonelada em chamas

Alguns questionam que Hazra deveria ter feito alguma coisa para ajudar os elefantes. Porém, temos que lembrar que não estamos falando de um filhote de cachorro que encontramos perdido por aí. Estamos falando de um animal selvagem que pode nascer pesando até 100kg. Em outras palavras, o tal “bebê” deve pesar cerca de meia tonelada e pode esmagar um humano adulto. O que dizer então de uma mãe elefante desesperada? Sem falar que temos ainda em cena uma multidão de pessoas jogando bolas flamejantes e fogos de artifício nos animais. Ou seja, qualquer pessoa que tiver sorte de chegar perto dos animais sem ser atingido, ainda terá que enfrentar a fúria de um animal que pesa cerca de quatro toneladas.

Outros questionam a qualidade estética da foto, pois não tem composição. Mas é importante frisar que não se trata aqui de uma fotografia ensaiada ou de um evento premeditado. Imagine você chegando a uma estrada com mato de ambos os lados e de repente é surpreendido por um elefante em chamas. São frações de segundo para disparar. Não existe tempo nem espaço para mudar de ângulo. A luz? É aquela mesma! Não tem como configurar flash ou esperar a hora mágica.

A premiação reflete não apenas a questão estética da imagem, mas aquilo que ela representa. O prêmio é uma tentativa de conscientização sobre o tratamento de elefantes no país. "Ao premiar a fotografia, queríamos aumentar a conscientização sobre a prática de violência contra elefantes em Bengala Ocidental e em outras partes do país", disse Anirudh Nair, editor da Sanctuary Asia.

Repercussão

A fotografia de Hazra e sua história espalhou-se rapidamente e estampou os sites e jornais de todo o mundo. Segundo o jornal The New Indian Express, agora o departamento florestal recuperou seus sentidos e construiu trincheiras profundas ao longo do perímetro da selva, cercada com fio elétrico. Essa cerca eletrificada não os matará, mas é forte o suficiente para repelir-los.

É importante entendermos que a fotografia não serve apenas para mostrar aquilo que queremos ver. Ela tem o poder não apenas de mostrar a realidade, mas de transformá-la através da reflexão que propõe diante de uma situação.

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