domingo, 20 de novembro de 2016

O racismo institucional e a representatividade na fotografia

Recentemente, assisti e compartilhei na página do Resumo Fotográfico no Facebook, um vídeo de uma campanha contra o racismo, desenvolvida pelo Governo do Estado do Paraná. No vídeo intitulado "Teste de Imagem", dois grupos de profissionais de RH são questionados a respeito de uma série de fotografias que mostram pessoas exercendo diversas atividades. Para o primeiro grupo, são apresentadas imagens de pessoas brancas. Para o segundo grupo, são apresentadas imagens semelhantes, porém, protagonizadas por pessoas negras. Na segunda situação, as interpretações foram sempre de que os personagens estariam está exercendo alguma atividade em uma posição subalterna ou que fosse de alguma forma pejorativa.

Reprodução
As respostas à foto com a mulher branca foram a de que ela seria uma "designer de moda" ou "compradora", enquando à imagem com a mulher negra, "vendedora" ou "costureira".

Esse vídeo me lembrou bastante uma história particular que vivenciei enquanto trabalhava como fotógrafo e programador visual em uma agência de comunicação de Belo Horizonte, há pouco mais de um ano. Recebi o briefing para a criação de um anuncio de uma academia. Como não existia orçamento para a realização de fotos no local, acabei recorrendo a um banco de imagens. Escolhi a foto de uma moça em uma bicicleta ergométrica. Feita a diagramação, repassei a arte para o editor. Pouco tempo depois ele retornou meu email informando que eu deveria procurar outra fotografia. Questionei o porque da reprovação. Ele me respondeu dizendo que o cliente poderia não gostar de uma modelo negra e que por esse motivo, preferia evitar qualquer problema.

Um dos grandes desafios ao trabalhar com banco de imagens é encontrar uma foto que realmente represente o público brasileiro. A maior parte da sua oferta é produzida para um mercado europeu e encontramos poucas imagens que representem negros ou pardos. Felizmente, esse quadro tem mudado em relação a produção de imagens, porém, falta ainda mudar o pensamento de alguns profissionais responsáveis pelas campanhas que vemos no dia a dia. Segundo o IBGE, os negros (e pardos) representam 53,6% da população brasileira, mas ao vermos um anúncio, percebemos que essa representação é completamente diferente, com a ausência de personagens negros ou sendo sempre uma minoria.

Vivemos hoje na era da imagem. Os meios de comunicação funcionam como elo entre uma pessoa e outra. Nesse sentido, a fotografia digital ganha um grande poder no papel de formar e transformar a percepção que as pessoas têm do mundo. A fim de debater sobre a falta de representatividade dos negros no universo artístico e a importância dessa mídia na formação de uma sociedade que saiba respeitar e entender a diversidade em que vivemos, a dupla de atores Noemia Oliveira e Orlando Caldeira criou uma série fotográfica intitulada "Identidade", que apresenta pessoas negras interpretando personagens como Mulher Maravilha, Marilyn Monroe e Super Homem. "Deveria ser normal um ator negro fazer qualquer personagem", diz Noemia.

Muita gente não percebe, mas o Racismo Institucional se manifesta através de práticas e comportamentos discriminatórios que fazem com que muitas pessoa sejam privadas de oportunidades profissionais, culturais e sociais diariamente. Segundo informações divulgadas no vídeo do Governo do Paraná, 82,6% dos negros afirmam que a cor da pele influencia na vida profissional. Os negros ganham 37% a menos que os brancos e ocupam apenas 18% dos cargos de liderança. Além do vídeo, a campanha conta com um site (www.contraracismo.pr.gov.br) que traz mais informações e dados sobre o racismo institucional.

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