sábado, 6 de maio de 2017

Uma série de nus que rompe com o binário de gênero

Os indivíduos retratados no mais novo fotolivro publicado por Maggie West recusam-se a ser categorizados.


Grande parte dos livros de fotografia de nu cai em uma destas duas categorias - super masculinos ou super femininos. Maggie West, uma fotógrafa que vive em Los Angeles buscou uma forma de mudar este padrão. Seu novo fotolivro, intitulado “23”, apresenta 23 modelos que são uma mistura de cis e transgêneros - e deliberadamente os gêneros como inseparáveis.

West projetou seu nome com seus dois livros anteriores - “Kiss”, um livro sobre a intimidade dos beijos e “Fluids”, para o qual fotografou fluidos corporais sob lentes microscópicas - e agora a fotógrafa voltou suas lentes para as formas humanas. “Acredito que o gênero e a sexualidade são fluidos,” conta por telefone de seu estúdio. “As pessoas não são exclusivamente uma coisa, em nossos traços e características, então eu tinha o desejo de fazer um livro de nus que fosse mais contemporâneo, que fosse idealizado de um jeito menos binário. Eu sentia que muitos dos livros de nu tinham homens muito masculinos e mulheres muito femininas. Eu queria registrar um espectro.”

Ela levou dois meses para fotografar uma variedade de modelos que conheceu por intermédio de amigos, no Instagram e pela primeira agência de modelos transgênero de Los Angeles, a Slay Models. “Eu apenas me mantive encontrando novas pessoas muito legais e tinha vontade de colocá-las no livro”, conta a fotografa. “Eu tinha a sensação de que o livro poderia continuar para sempre, então eu precisei finalizá-lo por um número arbitrário e esse número foi o 23.”


O livro apresenta a modelo trans Alice Wanzer, que faz parte do elenco de Strut, um reality show de moda transgênero no canal Oxygen Network. “Uma das coisas mais legais de fazer este livro foi a oportunidade de conversar com pessoas sobre como é ser trans”, conta West. “Conversas longas a respeito de como trabalhar com modelos trans, suas vidas e experiências.”

Wanzer também escreveu um dos ensaios introdutórios para o livro contando sua experiência como modelo. “Quando sou aplaudida por minha coragem em me expor e falar abertamente sobre minha identidade de gênero, me sinto envergonhada da humanidade”, escreve ela. “Vivemos em um mundo onde as pessoas preferem ser beijadas com a mentira ao invés de açoitadas pela verdade, e eu sou a verdade olhando para a sua cara. Tudo o que você tem aprendido e olhado como ‘normal’ a respeito de meninos e meninas está totalmente errado. O gênero é um espectro que não pode ser explicado apenas pelos genitais e pintado com cores pastéis.”

West ainda fotografou James Darling que é modelo e celebridade pornô. Ele foi uma das primeiras estrelas trans da indústria pornográfica, invadindo o segmento em 2009. Darling é um ex-trabalhador do sexo e entrou no segmento representando corpos trans no ambiente erótico e fotografá-lo reflete uma vibração semelhante. Também faz parte do livro o cantor e compositor Ryan Cassata que fala abertamente sobre ser trans e tem dado palestras pelos Estados Unidos sobre assumir a identidade trans, cirurgias de mudança de sexo e bullying.


Alguns dos modelos são figuras recorrentes nos trabalhos de West, como Christopher Zeischegg. Uma ex-celebridade pornô que era conhecida pelo nome de Danny Wylde e apaixonou-se por West durante as sessões de fotos para seu livro Fluids e desde então se tornou seu namorado. “Houve momentos ao longo de nossas conversas onde sentíamos como se estivéssemos em um filme – onde os desejos encontravam sua satisfação, e de certa maneira, parecia se bom demais para ser verdade”, escreve Zeischegg na introdução do livro. “Estava completamente apaixonado pelo trabalho de West e também pela forma como ela falava sobre ele.”

Para West foi mais fácil fotografar as estrelas pornô por que elas ficavam confortáveis nuas em seu estúdio que estava cheio de géis coloridos e luzes que davam um efeito hiper-realista às fotos. “Gosto de emoções verdadeiras em ambientes artificiais, eles se encaixam quando juntos”, diz West. “Muito do meu trabalho tem a ver com intimidade e vulnerabilidade.”


West também fotografou a celebridade pornô Janice Griffith que ficou famosa quando quebrou o pé enquanto fotografava para a revista Hustler há alguns anos e a publicação recusou-se a cobrir suas despesas médicas. Griffith critica abertamente as categorias racistas da indústria pornográfica – ela já foi classificada como Latina, Asiática e meio-negra – e ela não apoia como o conceito étnico é fetichizado pela pornografia (ela é índio-guianense e branca). A celebridade pornô americano-jamaicana Kira Noir, que é assumidamente bissexual, também foi fotografada para o livro.

As fotos tiradas de Noir por West a mostram sob uma luz algo andrógina, exatamente o ponto em questão. “Androginia é quando você não consegue afirmar se é masculino ou feminino e este conceito é bem proeminente no livro”, conta West. “Não acredito que esse livro irá resolver os problemas da sociedade sobre gênero e sexualidade, eu só queria oferecer uma visão mais inclusiva a respeito da sexualidade moderna, que não tem sido abordada nos livros de fotografia.”

Traduzido de i-D / Vice

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