quarta-feira, 24 de novembro de 2021

Entrevista: Adrian Teijido, diretor de fotografia de "Marighela"

novembro 24, 2021 | por Viviane Pedroso

Teijido filmando com a câmera na mão, em planos fechados, principal técnica utilizada no filme

Quando soube do lançamento de “Marighela", me animei. Desde que fora lançado, apenas em Berlim, em 2019, por problemas aqui que me abstenho de abordar, fiquei ansiosa por assisti-lo. Ao ver o trailer, já me entusiasmei bastante, a fotografia é impactante e pensei: “vou escrever sobre esse filme”. E fui além: porque não tentar umas palavras do diretor de fotografia, Adrian Teijido? Juntei toda minha audácia, mesclada da humildade de uma admiradora de sua obra, e chamei-o no Instagram. Ele me respondeu em poucas horas, muito atencioso e gentil, dizendo que estava filmando na Amazônia, mas que em 2 dias retornaria a São Paulo e poderíamos conversar. E assim foi.

Adrian Teijido, consagrado e premiado diretor de fotografia, nasceu em Buenos Aires, Argentina, e foi radicado no Brasil, em 1968. Seus pais vieram de uma Argentina golpeada e Adrian conta ter vivido momentos de tensão aqui, em sua infância e adolescência, durante a ditadura militar. Ele foi presidente da ABC - Associação Brasileira de Cinematografia - e faz parte da atual diretoria. Detentor de diversos prêmios, Adrian demonstra um profundo envolvimento em seu trabalho; mergulha-se em profundas pesquisas, inúmeros testes, envolve-se nas buscas de soluções e se doa abnegadamente à produção. Tamanho envolvimento salta aos olhos na intensidade e primor de suas obras.

Difícil, porém, é falar da fotografia de "Marighela" sem creditar o devido mérito a todas as equipes envolvidas. É perceptível, logo no início da película, uma intensa sinergia nas equipes de produção, tão engrenados e sintonizados numa harmonia de interesses que impressiona. Ninguém estava ali por acaso. E não é para menos. Conduzidos pelo experiente e premiado ator Wagner Moura, estreante na direção, mas com tão intensa carga de atuação, que soube unir toda a equipe em torno do objetivo final, com a empatia e a maestria da vivência adquirida em sets. Como destaca Teijido,“a liderança do Wagner é muito cativante”.

Teijido em filmagem de sequencia de ação em cenas externas

A equipe cinematográfica deste trabalho expressa fiel e primorosamente os desejos do diretor em sua intenção maior: a do realismo. Conforme Teijido, a ideia era transmitir, o mais realisticamente possível, a história insistentemente boicotada pela mídia brasileira por décadas. Para criar essa atmosfera documental e narrar eventos baseados em fatos reais, eles apostaram numa fotografia com paleta quase sombria, quase noturna, com pequenos toques em vermelho terroso, que transmitem a ideia de um mundo comum, jornalisticamente “normal”, mas também um mundo (omitido pelo “sistema” que calou a mídia) de questionamentos, batalhas e expectativas: um mundo humano, com suas desumanidades (ou melhor seria dizer, um mundo desumano, com suas humanidades). O filme é sensorial desde o início, na sequencia dos intensos e intermináveis 4 minutos do assalto ao trem, realizadas com câmera na mão e planos, em sua maioria, fechados e intimistas, em ações rápidas e tensas, que nos inserem involuntariamente na alma dos personagens. E começamos a ver com seus olhos e a sentir suas sensações, as emocionais e as físicas. Algumas bem fortes e cada vez mais sinestésicas ao longo da narrativa. Lembra aqueles filmes transmitidos em telas de 180 graus, em que parece que estamos “lá”, na cena, no fato. Dá taquicardia.

Frederico Pinto, Wagner Moura e Adrian Teijido

Mas, em contraponto, há também poesia, expressa principalmente pelas imagens do revolucionário e seu filho, Carlinhos, no mar. E pelas cartas gravadas pelo pai ao filho, em belas e suaves imagens. Momentos em que conhecemos um Marighela com anseios e frustrações marcados pela dualidade de uma paternidade distante, porém profundamente existente. Apesar de melancólicas, são imagens mais claras, ainda em tons secos e frios, mas com mais verde e azul, que geram, na narrativa dura, certa doçura e esperança, algum equilíbrio entre a dureza da vida politica e revolucionária e a suavidade de uma possível (?) vida familiar.


Pai e filho na praia

Bem, deixemos os melhores e curiosos detalhes e curiosidades para o maestro de tão reveladoras imagens. Com a palavra, Adrian Teijido.

Qual foi a concepção do objetivo principal colocado pelo diretor para a cinematografia do filme?

Logo que comecei a conversar com Wagner, percebi o que ele queria. Apesar de ser sua primeira direção, o fato de eu conhecer suas atuações e de já termos trabalhado juntos em Narcos, fez com que eu entendesse bem o estilo dele. E ele sempre tinha claro o que queria, o jeito que ele pensa é muito do ponto de vista do ator, ele gosta da câmera na mão, envolvida na trama, próxima dos atores e da forma mais livre possível, sem marcas, o que dificulta bastante os enquadramentos. Mas entendi o que buscava: que a cinematografia se aproximasse do documental, ele queria que vissem que aquilo fosse real, muito real. Esse conceito documental leva o espectador a acreditar o máximo possível, faz com que veja o filme como realidade, sem pirotecnia, sem glamourizar a realidade.

Seu Jorge, Wagner Moura e Adrian Teijido no set de filmagem

Quais foram os caminhos tomados pelas equipes de cinematografia para viabilizar esse conceito?

Uma vez estabelecido o conceito, Gabriela Cassaro fez uma intensa pesquisa de imagens de filmes políticos, para a gente ver o que ele gostava o que não, desde os Irmãos Dardenne, que ele gosta muito, Costa-Gravas, A Batalha de Argel, entre tantos outros. Frederico Pinto, diretor de arte, pesquisou sobre a época, em são Paulo e Rio, mergulhou na criação de uma paleta que transmitisse a época, foi descobrindo referências em filmes de ficção, de arte, como eram estas capitais em cores, figurinos, texturas, carros. Assim, a coisa foi ganhando forma.

Pouco antes de filmar, fiz testes, acho fundamental fazer os testes. Pedi atores semelhantes, com tons de pele parecidos com a de Seu Jorge e os outros e filmamos mesmo, com figurinos e locações; e filmei muito com câmera na mão, tomadas diurnas, noturnas, externas, internas. Fiz a pesquisa das cores, das texturas. Foca (Luciano Foca, da O2 Filmes) foi o colorista e conseguimos definir o conceito. Levei para o Wagner e o Frederico e concordamos com a paleta.

Em paralelo, a Fátima Toledo trabalhava os atores por meio de palestras e encontros com membros da ALN (Aliança Libertadora Nacional) e outras pessoas referenciais da época, que relataram suas vidas, as técnicas de tortura sofridas por eles, tudo o que vivenciaram na ocasião. Nós assistíamos aos ensaios com o Wagner, o que nos ajudou a perceber a intensidade dos atores, completamente imersos no conceito do filme.

Toda produção cinematográfica tem inúmeros desafios. Quais foram os maiores desafios que vocês enfrentaram para respeitar a concepção do filme?

Todo filme é um desafio mesmo, a gente espera sempre o máximo de tudo, captação, atores, era uma produção grande, mas nunca tinha o dinheiro suficiente, a gente quis locações que não conseguiu. Fotografar filmes de época em São Paulo e Rio é muito complicado, está tudo destruído, o prédio antigo tem, ao lado, um moderno. Chegamos a considerar fazer em Montevidéu, porque lá conseguiríamos prédios de época melhores, mais carros antigos, o clima melhor. Filmamos em Cachoeiro na Bahia, as cenas de Salvador, pois é parecido com a Salvador da época. Eu adoro a sequencia em que o filho do Marighela entra no mar e vem a musica do Gonzaguinha como trilha. Nesse momento da produção a gente já não tinha mais tempo nem grana, fomos no dia de nossa folga, com equipe reduzida, às 2 da manhã... E a natureza no presenteou com um lindo dia, era dia de Iemanjá e Wagner, como bom baiano, ligado no candomblé... Foi muito mágica a energia desse dia, todo mundo lutando contra o tempo. Outro momento difícil foi quando, no inicio da produção, e já em fase de ensaios, o Mano Brown, que era o protagonista, teve que deixar o filme, por problemas de excesso de compromissos. Foi um trauma, um atraso, mas são coisas que acontecem. Sem contar o fato dei termos que lançar o filme em Berlim e não aqui. Tivemos e vencemos grandes obstáculos.


Cena da explosão com Humberto Carrão

Ao assistir ao filme, a gente percebe uma sinergia intensa entre as equipes técnicas e atores. E a relação com Wagner, como você a define?

A liderança do Wagner é muito cativante, é impossível ter atrito com ele, a não ser que você pise na bola mesmo. Mas é preciso entendê-lo, ele é muito exigente, sério, mergulhado no trabalho. Ele se envolve intensamente, então tem que sacar e embarcar junto e, uma vez que isso acontece, é impossível ter atrito, é um set intenso e sério. Sou muito grato por ter tido essa oportunidade de trabalhar com ele de novo e, também, por tê-lo como amigo. Eu o admiro profundamente, é um cara muito compromissado com suas ideias.

Marighela e Carlinhos voltando da praia

Para finalizar, nos fale um pouco sobre a importância desse filme para você.

Esses momentos de tensão da ditadura sempre estiveram presentes em nossas conversas familiares. Apesar dos eventos terem ocorrido há 50 anos - tenho 58 anos, vivi um pouco distante desses fatos - meus pais, também da área do audiovisual - pai publicitário e mãe atriz e produtora - estavam sempre atentos e tinha muita tensão nesta época. Viemos da Argentina em 68 e, crescendo aqui no Brasil, sentindo as tensões de meus pais, fui entendendo o que a gente vivia com bastante clareza. Hoje, sabemos que as gerações novas não têm noção do tamanho da truculência que houve em tudo o que aconteceu. Pessoalmente, eu sempre acreditei que mostrar a verdade era importante para deixar muito claro o tamanho da atrocidade e da violência do que houve. Infelizmente é muito importante que tudo seja mostrado assim, com crueza, pois é fundamental entender a intensidade do que ocorreu.

“Uma ideia não pode ser assassinada, meu filho.
Nem com um tiro, nem com mentiras.”
- Carlos Marighela