quinta-feira, 8 de abril de 2021

O tempo transborda quando poesia e fotografia se unem para dizer adeus

abril 08, 2021 | por Adriana Vianna


Poucos meses depois da morte inesperada de Nusch em 1946 com um derrame fatal na rua, a artista surrealista, musa do surrealismo e companheira do poeta francês Eugène Emile Paul Grindel (1895-1952) foi homenageada com a publicação do livro “Le temps déborde” (1947). O livro com poesias e fotografias revelam o longo amor vivido por eles em dezessete anos de vida e a profunda dor da separação que afetou a própria vontade de viver do poeta, pois para Eugène, Paul Éluard, nessa época, também morreu. Os poemas assinados por outro pseudônimo Didier Desroches e as fotografias de Dora Maar e Man Ray, que participaram da amizade e convivência familiar, tornaram essa despedida algo entre uma ode e uma elegia num pequeno livro com 11 poemas e 11 fotografias. Alguns poemas, erguidos em arquitetura alexandrina ou em versos livres, declaram as tensões entre a morte a vida e a sua ruptura - ao mesmo tempo que parecem morrer ao lado da celebração da vida nas imagens fotográficas que guardaram para sempre a beleza de Nusch, silenciosamente. A arte tem essa proeza das coisas que falam quando querem sentir, indizíveis quase intocáveis que só a palavra na poesia alcança e a fotografia transcende nesses momentos em que tudo que fala também se cala, e deixam as duas linguagens unidas por imagens que sublinham o tempo que transborda entrelinhas. 

Nusch Éluard deitada de bruços na praia”. Fotografia de Dora Maar, 1936 -37

Lembrança afetuosa

Houve um grande riso triste
O pêndulo parou
Um bicho do mato salvava seus filhotes.
Risos opacos em quadros de agonia
Tantas nudezes transformando em irrisão a sua palidez
Transformando em irrisão
Os olhos virtuosos do farol dos náufragos.

Paul Éluard, em “Poemas: Paul Éluard”. [seleção e tradução de José Paulo Paes] Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1988.




Nusch Éluard”. Fotografia de Dora Maar e Man Ray

A morte o amor a vida

Julguei que podia quebrar a profundeza a
[imensidade
Com o meu desgosto nu sem contacto sem eco
Estendi-me na minha prisão de portas virgens
Como um morto razoável que soube morrer
Um morto cercado apenas pelo seu nada
Estendi-me sobre as vagas absurdas
Do veneno absorvido por amor da cinza
A solidão pareceu-me mais viva que o sangue.

Paul Éluard, em “Algumas das palavras: antologia. Paul Éluard”. [organização e prefácio António Ramos Rosa; tradução de António Ramos Rosa e Luísa Neto Jorge]. Lisboa: Dom Quixote, 1977.

Nusch Éluard”. Fotografia de Dora Maar, 1935

"Nusch Éluard”. Fotografia de Dora Maar e Man Ray

“Notre Vie” é o poema mais conhecido da coleção. O poema que chora e enfrenta o luto com o coração partido. 

Notre vie tu l’as faite elle est ensevelie
Aurore d’une ville un beau matin de mai
Sur laquelle la terre a refermé son poing
Aurore en moi dix-sept années toujours plus claires
Et la mort entre en moi comme dans un moulin
Notre vie disais-tu si contente de vivre
Et de donner la vie à ce * que nous aimions
Mais la mort a rompu l’équilibre du temps
La mort qui vient la mort qui va la mort vécue
La mort visible boit et mange à mes dépens
Morte visible Nush invisible et plus dure
Que la soif et la faim à mon corps épuisé
Masque de neige sur la terre et sous la terre »
Sources des larmes dans la nuit masque d’aveugle
Mon passé se dissout je fais place au silence.





“Nush Éluard”
Dora Maar & Man Ray
Paul ELUARD (sous le pseudonyme de) Didier Desroches

Paul Éluard, pseudônimo de Eugène Emile Paul Grindel, foi um poeta francês autor de poemas contra o nazismo que circularam clandestinamente durante a Segunda Guerra Mundial. Participou no movimento dadaísta e foi um dos pilares do surrealismo abrindo caminho para uma ação artística mais engajada, até filiar-se ao partido comunista francês. Tornou-se mundialmente conhecido como O Poeta da Liberdade. É o mais lírico e considerado o mais talentoso dos poetas surrealistas franceses. De origem humilde viveu entre mulheres durante sua formação cultural, preferindo trocar seu sobrenome Grindel pelo nome da avó materna Éluard pela simples beleza dos sons “aile, elle, élu, art”. Em vida ele teve três amores: Gala, Nusch e Dominique. A presença das mulheres em sua arte ficou eternizada em seus poemas e nas fotografias dos amigos, muitos poemas revelam o papel vital do feminino em sua resistência política. Vamos falar mais sobre esse assunto na nossa palestra “Amor, Desejo e Morte na Pintura e na Fotografia”.