terça-feira, 30 de novembro de 2021

Portfólio em Resumo: Ramon Vellasco

novembro 30, 2021 | por Resumo Fotográfico

Ramon Vellasco é artista urbano e arte-educador da Tijuca, Rio de Janeiro/RJ. Colaborador para o coletivo Polifonia Periférica, mídia independente de cultura periférica e de favela. Fotojornalista freelancer para Futura Press.
“Comecei a fotografia em 2011 como autodidata, fotografando as ruas do meu bairro, na zona norte do Rio de Janeiro e as cenas cotidianas da cidade. Envolvido pela cultura Hip-Hop, meu olhar é influenciado através da pixação, do graffiti e das vivências da rua. Minhas relações sempre foram ligadas à cultura urbana e periférica, sendo minhas bases de aprendizado de vida e identidade para minha fotografia, construindo uma narrativa de diálogo e troca de experiências, provocando um trabalho mais humanizado e reflexivo sobre a importância da arte, da cultura, do diálogo e do afeto, na cidade e na vida das pessoas. Estou me especializando em fotografia de retrato, e aprimorando minha experiência com fotografia documental e de fotojornalismo.”











Para conhecer mais sobre o trabalho de Ramon Vellasco, acesse seu site ou Instagram.

segunda-feira, 29 de novembro de 2021

Exposição reúne memória iconográfica de Ilhabela

novembro 29, 2021 | por Resumo Fotográfico

Nesta quarta-feira, 1 de dezembro, de 19h às 22h, acontece a abertura da exposição fotográfica “Villa Bella – Memória Iconográfica de uma bela Ilha (Ilhabela – 1900-1980)”, no prédio histórico da Fundação Arte e Cultura de Ilhabela. A mostra, que poderá ser visitada até o dia 29 de dezembro, é organizada pela fotógrafa Maristela Colucci e reúne 69 imagens que retratam momentos do passado e se confundem com a história de seus moradores.

O período retratado, 1900 a 1980, coincide com a evolução da fotografia e a época de transição da ‘Villa Bella’ caiçara, dos primeiros anos do século 20, com resquícios da colonização portuguesa e de uma economia baseada na pesca e agricultura para sua vocação turística que se intensifica nas décadas seguintes.

O Píer da Vila foi um antigo ponto de chegada e partida desde a época colonial. A construção, antes de madeira conhecida por “Pontão”, também já abrigou inúmeros comércios e um dos primeiros hotéis da cidade, o Villa Bella, e os restaurantes Arco do Triunfo e Aracati. Foto década de 1960, Acervo Família Arruda Volcoff.

A Ilhabela de hoje, conhecida por suas belas praias e eventos náuticos, como a Semana Internacional de Vela, é rica em lendas, histórias dos antigos engenhos de aguardente, religiosidade e tradições. A exposição fotográfica “Villa Bella – Memória Iconográfica de uma bela Ilha (Ilhabela – 1900-1980)” é fruto de uma pesquisa informal iniciada 2010, quando Maristela Colucci deparou-se com acervos particulares de famílias caiçaras e dos primeiros veranistas. A ideia de montar uma exposição ou livro permaneceu engavetada vários anos e ressurge em 2021. O projeto foi viabilizado por meio da Lei Aldir Blanc e financiamento com recursos do Fundo Municipal de Cultura do Município de Ilhabela - SP.

As imagens cedidas para integrar a exposição foram organizadas por temas: Travessia, Bem-vindos, Casamentos, Retratos, Economia, Engenhos, Cotidiano, Carnaval, Religião, Curiosidades, Educação, Congada, Arquitetura, Pesca e Natureza. “Os 15 eixos estabelecidos foram surgindo aos poucos, para assim costurar a história da ilha. A pesquisa nos mostrou claramente que ainda há muito terreno a garimpar”, pondera Maristela.

Casamento caiçara na década de 1930. Convidado posa emoldurado pelo canavial, cultivado para produção de aguardente. Acervo Max Rezende

Durante a pesquisa, Maristela encontrou diversas fotografias em papel, cujos negativos se perderam, armazenadas em caixas e em álbuns; algumas poucas emolduradas. No caso de slides, o estado de conservação estava ruim, com muitos fungos e marcas de manuseio. A surpresa para ela foi encontrar daguerreótipos feitos nas décadas de 1920 e 1930.

Além das fotografias, o espaço expositivo receberá vitrines contendo objetos e documentos de época. Entre as relíquias estão lamparinas utilizadas na década de 1950 para sinalizar a pista do hoje desativado campo de aviação no Saco da Capela e um recorte de jornal local datado de 1914.

A partir de 1942, substituindo as canoas mas ainda sem cais para atracar, a travessia do canal passou a ser feita por lanchinhas que ancoravam em frente às praias do Perequê e da Barra Velha, onde passageiros, bagagens e mercadorias eram transferidos para as canoas de voga, que os levavam para terra firme. Na foto, a S2, primeira lanchinha a cruzar o canal. Foto de 1945. Acervo Eulina de Mello Quinteiro.

Com intuito de compartilhar os acervos iconográficos para mais pessoas, as 69 imagens que integram a exposição, assim como outras editadas, serão disponibilizadas para pesquisa e acesso online no Instagram do projeto.

Como forma de alcançar e divulgar para mais pessoas todos esses achados que contam uma parte importante da vida e história de Ilhabela, haverá uma programação educativa com palestras sobre o processo criativo envolvido na pesquisa em, pelo menos, uma escola da rede pública e outra particular do município de Ilhabela, com a organizadora da mostra Maristela Colucci (pesquisa de imagens) e Camila Prado (pesquisa histórica). Além disso, todas as escolas do Município receberão Proposta de Atividades Escolares produzida especialmente pelo projeto.

Sobre a organizadora da exposição

Fotógrafa paulistana, Maristela Colucci apresentou seis exposições individuais no Brasil e uma em Lisboa, Portugal. Coletivamente, expôs no Brasil em museus como MAM, MIS e Memorial da América Latina, e também em Bogotá/Colômbia, no Porto/Portugal, em Nova York/EUA e em Florença/Itália. Tem sete fotolivros autorais publicados. Suas fotos integram o acervo de fotografia do MAM - Museu de Arte Moderna (Verde Lente), FNAC e Biblioteca Nacional da França.

SERVIÇO
Exposição “Villa Bella – Memória Iconográfica de uma bela ilha (Ilhabela – 1900-1980)”
Abertura: 1 de dezembro de 2021, de 19h às 22h
Período: 2 a 29 de dezembro de 2021
Horário: Segunda a quinta, de 9h às 18h. Sexta de 9h às 21h. Sábado e domingo de 15h às 21h
Local: Fundação Arte e Cultura de Ilhabela (Fundaci) – Rua Dr. Carvalho, 80, Ilhabela/SP

sexta-feira, 26 de novembro de 2021

Comedy Wildlife Photography Awards 2021

novembro 26, 2021 | por Resumo Fotográfico

Prêmio internacional selecionou os registros de algumas das cenas mais engraçadas encontradas na vida selvagem

O Comedy Wildlife Photography Awards celebra fotos de vida selvagem tecnicamente excelentes e com humor para chamar a atenção para a situação de animais e habitats em perigo. O concurso é realizado anualmente em parceria com a Fundação Born Free, uma instituição internacional de caridade cujo trabalho é pôr fim ao sofrimento de animais e espécies de vida selvagem.


John Speirs/CWPA


Arthur Trevino/CWPA


Chee Kee Teo/CWPA


Vicki Jauron/CWPA


Jan Piecha/CWPA


Gurumoorthy K/CWPA


Chu Han Lin/CWPA



Jakub Hodan/CWPA


Lea Scaddan/CWPA


Roland Kranitz/CWPA


Nicolas de Vaulx/CWPA


Pal Marchhart/CWPA

quinta-feira, 25 de novembro de 2021

Por trás da imagem: protestando contra a Guerra do Vietnã com uma flor

novembro 25, 2021 | por Resumo Fotográfico

Marc Riboud registrou a famosa imagem que se tornaria emblemática do movimento anti-guerra do Vietnã


Uma jovem, Jan Rose Kasmir, enfrenta a Guarda Nacional Americana fora do Pentágono durante a marcha contra a Guerra do Vietnã de 1967. Washington, DC, EUA, 1967 | Marc Riboud / Magnum Photos

Em 21 de outubro de 1967, quase 100.000 pessoas marcharam em Washington para protestar pacificamente em torno dos edifícios do Pentágono em protesto contra a guerra no Vietnã. Em seguida, um fotógrafo da Magnum, Marc Riboud, documentou os procedimentos. A última imagem que ele capturou foi a de Jan Rose Kasmir, de 17 anos, enquanto ela segurava uma flor de crisântemo para uma fileira de soldados da Guarda Nacional com baionetas.

Kasmir não tinha conhecimento da fotografia que estava sendo tirada na época, mas a imagem passou a representar bravura e o poder do protesto pacífico. Em declarações ao Guardian em 2015, Jan Rose Kasmir disse: “Foi só quando vi o impacto desta fotografia que percebi que não era apenas uma loucura momentânea - eu estava defendendo algo importante.”


Marcha contra a Guerra do Vietnã em torno do Pentágono. Arlington, Virgínia, EUA. 1967 | Marc Riboud / Magnum Photos

Marc Riboud fez várias viagens ao Vietnã na década de 1960, vendo com os próprios olhos a guerra que tinha ouvido falar e debater na imprensa. “Foi difícil não sentir simpatia pelos vietnamitas que resistiram tão bravamente ao bombardeio implacável”, disse ele, “e a simpatia ajuda a compreender um país, para uma pessoa, melhor do que indiferença ou 'objetividade' (que é uma noção espúria em qualquer caso). ”

Seu trabalho cobrindo os protestos do Pentágono foi uma continuação dessa linha de interesse. Algumas outras fotos, tiradas no mesmo dia, mostram o que os manifestantes devem ter visto quando se deparam com uma fileira de baionetas e dão uma ideia da escala do evento.


Uma jovem, Jan Rose Kasmir, enfrenta a Guarda Nacional Americana fora do Pentágono durante a marcha contra a Guerra do Vietnã de 1967. Washington, DC, EUA, 1967 | Marc Riboud / Magnum Photos

Riboud se lembrou do evento do dia para um ensaio sobre sua carreira, publicado em 1989:
“Um dia, em outubro de 1967, me vi em Washington, arrastado pelo turbilhão de uma causa na época simples e direta. Uma vasta multidão em êxtase marchava pela paz no Vietnã enquanto o sol de um verão indiano inundava as ruas da cidade. Centenas de milhares de rapazes e moças, tanto negros quanto brancos, estavam desafiadoramente se aproximando do Pentágono, a cidadela do exército mais poderoso do mundo e por um dia a juventude da América presenteou a América com um rosto bonito. Eu estava tirando fotos como um louco, ficando sem filme ao cair da noite. A última foto foi a melhor. Em meu visor estava o símbolo daquela juventude americana: uma flor colocada diante de uma fileira de baionetas. O poder da América naquele dia, apresentou a América com uma cara triste.”

quarta-feira, 24 de novembro de 2021

Entrevista: Adrian Teijido, diretor de fotografia de "Marighela"

novembro 24, 2021 | por Viviane Pedroso

Teijido filmando com a câmera na mão, em planos fechados, principal técnica utilizada no filme

Quando soube do lançamento de “Marighela", me animei. Desde que fora lançado, apenas em Berlim, em 2019, por problemas aqui que me abstenho de abordar, fiquei ansiosa por assisti-lo. Ao ver o trailer, já me entusiasmei bastante, a fotografia é impactante e pensei: “vou escrever sobre esse filme”. E fui além: porque não tentar umas palavras do diretor de fotografia, Adrian Teijido? Juntei toda minha audácia, mesclada da humildade de uma admiradora de sua obra, e chamei-o no Instagram. Ele me respondeu em poucas horas, muito atencioso e gentil, dizendo que estava filmando na Amazônia, mas que em 2 dias retornaria a São Paulo e poderíamos conversar. E assim foi.

Adrian Teijido, consagrado e premiado diretor de fotografia, nasceu em Buenos Aires, Argentina, e foi radicado no Brasil, em 1968. Seus pais vieram de uma Argentina golpeada e Adrian conta ter vivido momentos de tensão aqui, em sua infância e adolescência, durante a ditadura militar. Ele foi presidente da ABC - Associação Brasileira de Cinematografia - e faz parte da atual diretoria. Detentor de diversos prêmios, Adrian demonstra um profundo envolvimento em seu trabalho; mergulha-se em profundas pesquisas, inúmeros testes, envolve-se nas buscas de soluções e se doa abnegadamente à produção. Tamanho envolvimento salta aos olhos na intensidade e primor de suas obras.

Difícil, porém, é falar da fotografia de "Marighela" sem creditar o devido mérito a todas as equipes envolvidas. É perceptível, logo no início da película, uma intensa sinergia nas equipes de produção, tão engrenados e sintonizados numa harmonia de interesses que impressiona. Ninguém estava ali por acaso. E não é para menos. Conduzidos pelo experiente e premiado ator Wagner Moura, estreante na direção, mas com tão intensa carga de atuação, que soube unir toda a equipe em torno do objetivo final, com a empatia e a maestria da vivência adquirida em sets. Como destaca Teijido,“a liderança do Wagner é muito cativante”.

Teijido em filmagem de sequencia de ação em cenas externas

A equipe cinematográfica deste trabalho expressa fiel e primorosamente os desejos do diretor em sua intenção maior: a do realismo. Conforme Teijido, a ideia era transmitir, o mais realisticamente possível, a história insistentemente boicotada pela mídia brasileira por décadas. Para criar essa atmosfera documental e narrar eventos baseados em fatos reais, eles apostaram numa fotografia com paleta quase sombria, quase noturna, com pequenos toques em vermelho terroso, que transmitem a ideia de um mundo comum, jornalisticamente “normal”, mas também um mundo (omitido pelo “sistema” que calou a mídia) de questionamentos, batalhas e expectativas: um mundo humano, com suas desumanidades (ou melhor seria dizer, um mundo desumano, com suas humanidades). O filme é sensorial desde o início, na sequencia dos intensos e intermináveis 4 minutos do assalto ao trem, realizadas com câmera na mão e planos, em sua maioria, fechados e intimistas, em ações rápidas e tensas, que nos inserem involuntariamente na alma dos personagens. E começamos a ver com seus olhos e a sentir suas sensações, as emocionais e as físicas. Algumas bem fortes e cada vez mais sinestésicas ao longo da narrativa. Lembra aqueles filmes transmitidos em telas de 180 graus, em que parece que estamos “lá”, na cena, no fato. Dá taquicardia.

Frederico Pinto, Wagner Moura e Adrian Teijido

Mas, em contraponto, há também poesia, expressa principalmente pelas imagens do revolucionário e seu filho, Carlinhos, no mar. E pelas cartas gravadas pelo pai ao filho, em belas e suaves imagens. Momentos em que conhecemos um Marighela com anseios e frustrações marcados pela dualidade de uma paternidade distante, porém profundamente existente. Apesar de melancólicas, são imagens mais claras, ainda em tons secos e frios, mas com mais verde e azul, que geram, na narrativa dura, certa doçura e esperança, algum equilíbrio entre a dureza da vida politica e revolucionária e a suavidade de uma possível (?) vida familiar.


Pai e filho na praia

Bem, deixemos os melhores e curiosos detalhes e curiosidades para o maestro de tão reveladoras imagens. Com a palavra, Adrian Teijido.

Qual foi a concepção do objetivo principal colocado pelo diretor para a cinematografia do filme?

Logo que comecei a conversar com Wagner, percebi o que ele queria. Apesar de ser sua primeira direção, o fato de eu conhecer suas atuações e de já termos trabalhado juntos em Narcos, fez com que eu entendesse bem o estilo dele. E ele sempre tinha claro o que queria, o jeito que ele pensa é muito do ponto de vista do ator, ele gosta da câmera na mão, envolvida na trama, próxima dos atores e da forma mais livre possível, sem marcas, o que dificulta bastante os enquadramentos. Mas entendi o que buscava: que a cinematografia se aproximasse do documental, ele queria que vissem que aquilo fosse real, muito real. Esse conceito documental leva o espectador a acreditar o máximo possível, faz com que veja o filme como realidade, sem pirotecnia, sem glamourizar a realidade.

Seu Jorge, Wagner Moura e Adrian Teijido no set de filmagem

Quais foram os caminhos tomados pelas equipes de cinematografia para viabilizar esse conceito?

Uma vez estabelecido o conceito, Gabriela Cassaro fez uma intensa pesquisa de imagens de filmes políticos, para a gente ver o que ele gostava o que não, desde os Irmãos Dardenne, que ele gosta muito, Costa-Gravas, A Batalha de Argel, entre tantos outros. Frederico Pinto, diretor de arte, pesquisou sobre a época, em são Paulo e Rio, mergulhou na criação de uma paleta que transmitisse a época, foi descobrindo referências em filmes de ficção, de arte, como eram estas capitais em cores, figurinos, texturas, carros. Assim, a coisa foi ganhando forma.

Pouco antes de filmar, fiz testes, acho fundamental fazer os testes. Pedi atores semelhantes, com tons de pele parecidos com a de Seu Jorge e os outros e filmamos mesmo, com figurinos e locações; e filmei muito com câmera na mão, tomadas diurnas, noturnas, externas, internas. Fiz a pesquisa das cores, das texturas. Foca (Luciano Foca, da O2 Filmes) foi o colorista e conseguimos definir o conceito. Levei para o Wagner e o Frederico e concordamos com a paleta.

Em paralelo, a Fátima Toledo trabalhava os atores por meio de palestras e encontros com membros da ALN (Aliança Libertadora Nacional) e outras pessoas referenciais da época, que relataram suas vidas, as técnicas de tortura sofridas por eles, tudo o que vivenciaram na ocasião. Nós assistíamos aos ensaios com o Wagner, o que nos ajudou a perceber a intensidade dos atores, completamente imersos no conceito do filme.

Toda produção cinematográfica tem inúmeros desafios. Quais foram os maiores desafios que vocês enfrentaram para respeitar a concepção do filme?

Todo filme é um desafio mesmo, a gente espera sempre o máximo de tudo, captação, atores, era uma produção grande, mas nunca tinha o dinheiro suficiente, a gente quis locações que não conseguiu. Fotografar filmes de época em São Paulo e Rio é muito complicado, está tudo destruído, o prédio antigo tem, ao lado, um moderno. Chegamos a considerar fazer em Montevidéu, porque lá conseguiríamos prédios de época melhores, mais carros antigos, o clima melhor. Filmamos em Cachoeiro na Bahia, as cenas de Salvador, pois é parecido com a Salvador da época. Eu adoro a sequencia em que o filho do Marighela entra no mar e vem a musica do Gonzaguinha como trilha. Nesse momento da produção a gente já não tinha mais tempo nem grana, fomos no dia de nossa folga, com equipe reduzida, às 2 da manhã... E a natureza no presenteou com um lindo dia, era dia de Iemanjá e Wagner, como bom baiano, ligado no candomblé... Foi muito mágica a energia desse dia, todo mundo lutando contra o tempo. Outro momento difícil foi quando, no inicio da produção, e já em fase de ensaios, o Mano Brown, que era o protagonista, teve que deixar o filme, por problemas de excesso de compromissos. Foi um trauma, um atraso, mas são coisas que acontecem. Sem contar o fato dei termos que lançar o filme em Berlim e não aqui. Tivemos e vencemos grandes obstáculos.


Cena da explosão com Humberto Carrão

Ao assistir ao filme, a gente percebe uma sinergia intensa entre as equipes técnicas e atores. E a relação com Wagner, como você a define?

A liderança do Wagner é muito cativante, é impossível ter atrito com ele, a não ser que você pise na bola mesmo. Mas é preciso entendê-lo, ele é muito exigente, sério, mergulhado no trabalho. Ele se envolve intensamente, então tem que sacar e embarcar junto e, uma vez que isso acontece, é impossível ter atrito, é um set intenso e sério. Sou muito grato por ter tido essa oportunidade de trabalhar com ele de novo e, também, por tê-lo como amigo. Eu o admiro profundamente, é um cara muito compromissado com suas ideias.

Marighela e Carlinhos voltando da praia

Para finalizar, nos fale um pouco sobre a importância desse filme para você.

Esses momentos de tensão da ditadura sempre estiveram presentes em nossas conversas familiares. Apesar dos eventos terem ocorrido há 50 anos - tenho 58 anos, vivi um pouco distante desses fatos - meus pais, também da área do audiovisual - pai publicitário e mãe atriz e produtora - estavam sempre atentos e tinha muita tensão nesta época. Viemos da Argentina em 68 e, crescendo aqui no Brasil, sentindo as tensões de meus pais, fui entendendo o que a gente vivia com bastante clareza. Hoje, sabemos que as gerações novas não têm noção do tamanho da truculência que houve em tudo o que aconteceu. Pessoalmente, eu sempre acreditei que mostrar a verdade era importante para deixar muito claro o tamanho da atrocidade e da violência do que houve. Infelizmente é muito importante que tudo seja mostrado assim, com crueza, pois é fundamental entender a intensidade do que ocorreu.

“Uma ideia não pode ser assassinada, meu filho.
Nem com um tiro, nem com mentiras.”
- Carlos Marighela