quinta-feira, 22 de outubro de 2020

Por dentro da visão foto documental e artística de Júlia Pontés

outubro 22, 2020 | por Adriana Vianna

A fotógrafa mineira que leva Minas Gerais e a luta mineral para o mundo, hoje conta um pouco da sua experiência e do processo artístico

Autorretrato da série "Deruptos" de Júlia Pontés

No caminho das fotografias aéreas que flagraram a destruição nas áreas mineradas em Minas Gerais ainda ecoa o grito, o choro, o lamento e as perdas. Desde 2015 as imagens de Júlia Pontés viajam por territórios nacionais e internacionais levando a luta contra as causas das destruições socioambientais causadas pela Samarco e pela Vale. A percepção das áreas atingidas para a pesquisa das paisagens colabora para um panorama maior no qual outros fotógrafos participam, levando-nos ao exame e ao autoexame, pois se as mineradoras existem e exploram as regiões, a extravagância e o consumo exagerado colaboram para a ganância das extrações.

Ó Minas Gerais | My Land Our Landscape #28 | Estação seca - São Gonçalo do Rio Abaixo, Minas Gerais | 19º 52'36,33"S 43º 24'12,311"W | No censo de 2010 a cidade apresentava o 6º maior PIB do Brasil. Júlia Pontés

Contudo, as paisagens inundadas pela lama são belíssimas, terrivelmente belas. De longe parecem pinturas abstratas de alto nível intelectual e estético, parecem pinturas de Fayga Ostrower, que buscava o orgânico e as formas da natureza. É um trabalho documental, mas também é tratado como artístico. Como documento choca e aterroriza, como arte leva à catarse. A catarse, por sua vez, desafoga o espírito. Por esse viés me aproximo e exponho minha curiosidade em saber como é o processo interno da artista. Procuro saber se a beleza da obra de arte amenizou a gravidade da indignação e dos conflitos durante o processo documental. Procuro saber de que modo tem administrado a atualização do próprio trabalho. Ela conta que o processo é uma parte muito importante, por vezes mais importante que a parte final, pois ficar presa só em objetivos e em alcançar resultados pode tornar o trabalho muito frustrante, a relação de esforço com a relação de conquista é muito pequena. Então, ela põe o foco na experiência. A experiência que motiva meios e condições de produzir desdobramentos numa jornada incansável de conscientização coletiva, que consegue com as exposições, inclusive as internacionais, de onde vem muitas parcerias e muitos diálogos.

Ó Minas Gerais | My Land Our Landscape #29 | Estação seca. | Itabira, Minas Gerais | Filme positivo em grande formato | Câmera Speed Graphic adaptada para fotografia aérea com a ajuda de dois membros da comunidade mineira. Júlia Pontés

Originalmente, a obra documental que hoje existe foi pensada como filme, para ser realizada em filme, porque tomou a consciência que o problema, infelizmente, não poderia ser resolvido por ela, e talvez nem por essa geração, então pensou em fazer a obra como arquivo e no futuro doar todo seu acervo para alguma instituição compor um Memorial onde exista essa documentação que está sendo reunida. As barragens não podem ser esquecidas. As empresas de mineração que tanto impactam o meio ambiente, os povos e os territórios, não podem ser esquecidas. O desamparo socioambiental não pode ser esquecido. O Trem mais longo do mundo não pode ser esquecido. Porém, na época em que começou o trabalho houve problemas estruturais com as câmeras e ela continuou com as fotografias aéreas, esse estilo fotográfico criado como instrumento de guerra do qual se apropriou como linguagem. Suas imagens são realizadas com câmera digital e com sua preferida câmera de guerra que precisou ser adaptada para entrar na guerra contra a Vale que, por sua vez, também foi criada pelo instrumento de guerra num acordo entre EUA, Inglaterra e Brasil em 1939.

Ó Minas Gerais | My Land Our Landscape #8 | Estação chuvosa | Cidade de Mariana, Minas Gerais. | Barragem de rejeito de Fundão, 60 dias após seu rompimento gerando o maior acidente ambiental da história do Brasil. Júlia Pontés

Sabendo que queria fazer uma fotografia diferente da fotografia aérea tradicional ou corporativa, não sabia que resultado teria. Fascinada com microscópio, ela conta que quando olhou pelo visor da câmera e viu toda a região como se olhasse por meio de um microscópio, não teve dúvidas, encontrou naquela paisagem gigante fragmentada, decomposta, deformada, a expressão de como sentia os conflitos que a situação gerava. A dor emergiu e consolidou o afeto por Minas Gerais, sua terra, sua casa, sua gente, sua pele, como diz. É essa dor que tenta trazer nos seus trabalhos por meio dessa dissonância entre a beleza estética e a legenda que é parte inseparável de cada obra. Onde quer que cada foto esteja, lá estará a legenda contendo os dados e a estação do ano, pois assim marca a diferença de luz, de refração, de tonalidade na imagem - no verão que tem mais água, a imagem é mais saturada; no inverno, época de seca com muitas partículas no ar, as sombras são mais duras. Júlia tem um olho no documento e outro na arte, "um olho vê, o outro sente" (Paul Klee). Com a implantação do código QR nas obras as pessoas em qualquer época poderão apontar a câmera do celular para o código e ver a localização real de cada barragem, com informações das cidades, da população e dos minérios explorados - tornando a experiência estética ainda mais forte.

Autorretrato da série "uw' de Júlia Pontés

Uma parte muito importante que ela conta do seu processo artístico surgiu durante uma fase em que ficou um mês esperando para voar e começou a fazer retratos e autorretratos na família, o que se estendeu às pessoas da comunidade estabelecendo laços e relações afetivas que perduram até hoje em comunicações até pelo WhatsApp, quando está distante. Nessa fase também inaugurou uma coleção particular de pedras e catalogação dos minerais em um diário. Ela conta que esses trabalhos performáticos e artísticos tem lhe ajudado a digerir o trabalho documental. As performances, que ela chama de "Pesquisas de Si Mesma", tratam energicamente de sua posição no mundo. Nas imagens de seu corpo fragmentado e partido em "Despersonalização", guiado ou interagindo com uma luz em "uw", explodido e rompido em "Desruptus" é possível entender o pathos dos conflitos entre sua origem e fim que afetaram sua coluna vertebral. Oriunda de uma família ligada à mineração, seu avô foi siderúrgico por mais de 50 anos, ela mesma esteve do outro lado. Quase como uma figura "Saulo de Tarso" que queria lucrar com a mineração, Júlia foi tombada pelas tragédias em Minas Gerias e passou a militar fortemente na causa.

Autorretrato da série "Despersonalização" de Júlia Pontés. Como resultado de uma fratura espinhal, meu corpo se partiu, em seu centro de gravidade, em duas partes iguais. A dualidade apresentada nessa condição física era um reflexo do meu estado emocional e mental.


Autorretrato da série "Despersonalização" de Júlia Pontés


Autorretrato da série "Despersonalização" de Júlia Pontés




Ó Minas Gerais | My Land Our Landscape #23 | Estação seca | Linhares próximo a Regência, estado do Espírito Santo onde o rio|barragem do Rio Doce encontra o mar. Aproximadamente 400 milhas do local do acidente seguindo o curso do rio, 9 meses após o acidente ambiental. Júlia Pontés




Julia Pontés é artista e fotógrafa documental, colaboradora do Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM). Foi premiada pela Harvard com mostra "Ó Minas Gerais - Paisagens Transitórias".  Atualmente é bolsista da N.G. e já está de volta ao trabalho de campo, produzindo e desenvolvendo um projeto sobre o que está acontecendo durante essa pandemia covid-19 nas comunidades que foram atingidas pela mineração. Sua intenção é continuar dando visibilidade e material documental para fomentar a discussão dos efeitos catastróficos na estrutura humana e ambiental.