quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

Dialogando com Magritte, entre a plástica e a fotografia de Marco Antonio Perna

fevereiro 18, 2021 | por Adriana Vianna

A arte do pintor é diversa, a do fotógrafo é infinita. Mas, quando se vê um fotógrafo esculpindo o corpo feminino, lembra-se dos gregos. Os gregos tinham orgulho do corpo, os judeus e os cristãos validaram a vergonha, pois a nudez, para eles, era a condição dos miseráveis


Na Grécia antiga, por meio do conceito de Apolo, a obra supera o sofrimento do indivíduo com a sublimação da eternidade na aparência fixada na forma - é como se a beleza pudesse vencer a dor e o sofrimento inerente à existência - criando imagens que sejam dignas dessa transfiguração que emerge da vontade e do desejo - revelado na carne, pertencente ao espírito. Para isso se esculpia, para transformar mortais em deuses.

Nessa série selecionada do livro “Female Sculpures” de Marco Antonio Perna, para essa pauta, a mulher esculpida pela luz e contornada pelas penumbras parece modelada no silêncio e no devir de sua teogonia, num álbum predominantemente apolíneo trazendo em si harmonia, beleza e equilíbrio. O fotógrafo nos conta que gosta de testar novos caminhos e que, de modo geral, gosta de ter pessoas e ter sorrisos em suas fotos. Sendo um profissional que vem do fotojornalismo, da dança e dos bailes cariocas, nesse álbum de nu artístico, ele fez o ensaio com todas as modelos sérias, com corpos naturais, não modelados por treinos em academia. Sem procurar silhuetas perfeitas, acabou trabalhando com mulheres entre 20 e 60 anos - mulheres hetero, homo e trans. Seu trabalho foi ajustar as poses para cada corpo e seu objetivo passou longe de mostrar a diferença entre elas, pois para ele todas tem corpos femininos e naturalmente sensuais, independente da idade ou da preferência de gênero. 


Não faz muito tempo, começamos a refletir sobre aproximações entre as artes plásticas e a fotografia aqui no Resumo Fotográfico. Curiosamente, nesse álbum de esculturas fotográficas, a fotografia que inspirou a seleção que aqui mostramos foi nomeada como “Diálogo com Magritte” - um pintor surrealista que deslocava os objetos de suas funções originais para dar a eles um lugar de pensamento e reflexão no silêncio do invisível. Magritte também transformava uma imagem em um problema pictórico, problematizando o jogo entre verdade e mentira na arte, colocando um quadro dentro de outro quadro. Numa série nomeada “La Condition Humaine” o pintor aproximava por semelhança pinturas diferentes sob o prisma da representação no campo real - esse jogo entre o visível e o invisível, entre o esconder e revelar, - ou entre percepção e a materialidade da ideia que, por sua vez, promovem o jogo da arte e a verdade. 


Com algum conceito das telas de Magritte, as fotografias também nos põe num jogo onde os jogadores somos nós, os apreciadores, os que leem a obra - os que procuram na obra a verdade da obra - como diria Heidegger. Será, portanto, o nosso olhar que avistará o que há de real na sua representação das mulheres que ele esconde e revela nessa posição quase uterina, que, na Yoga, é conhecida como ardha kurmasana - uma posição de meia tartaruga, um asana de restauração. 

Magritte passou a vida a construir e desconstruir a imagem reconhecível do real dando-lhes significados abertos, permitindo-nos re-conhecer o mundo pelo indizível - até que as palavras que fogem à interpretação, retornem, quando, por exemplo, queremos surpreender dizendo o que vemos ao olhar um homem com uma maçã no rosto, e ao mesmo tempo queremos o silêncio para ocultar os significados que transcendem o visual porque o que se mostra, se mostra como continuidade de uma realidade poética.







E quando se trata de fotografia, faz diferença? Olhar para esse ensaio de corpos femininos dobrados entre as pernas e os braços, quase todos na mesma posição, que não se sabe muito bem se é um auto abraço, uma entrega, uma resignação. De qual condição, podemos falar? Magritte escondia a realidade com a ficção pictórica. O que a fotografia esconde? O que está por trás das imagens? 

Muito se pensa que um corpo nu fotografado nada mais tem para esconder, no entanto, a nudez pode esconder algo. Aqui, numa posição repetida diversas vezes por mulheres diferentes - como um quadro dentro de outro quadro - elucidando e nos fazendo perceber além do corpo e da matéria, que há uma expressão da universalização da condição humana feminina no devir de um contínuo (re) nascimento. 





Marco Antonio Perna é profissional de TI e pesquisador com mestrado, dançarino de dança de salão e um apaixonado por fotografia desde sempre. Iniciou sua carreira como fotógrafo registrando o II Encontro Internacional da Dança, em 1997, no Hotel Glória (Rio de Janeiro), quando além de fotografar percebeu a necessidade de documentar os eventos - foi assim que o fotojornalismo surgiu em sua trajetória. Com vasta experiência em fotografia de dança de salão e de modalidades artísticas como danças étnicas, jazz, ballet e outras, desenvolveu seu olhar para o corpo humano, aventurando-se nesse projeto de nu artístico  (2015-2017). A obra do fotografo pode ser vista no seu site, onde encontram-se seus dois livros: “Female Sculptures” e “Bailes Cariocas”.